
Com o intuito de relembrar e reavivar meu interesse por trabalhos acadêmicos, o post de hoje é um artigo escrito por mim em 2005 (ui!) durante o curso de Letras.
É meio extenso, mas como gostei muito de escrevê-lo, espero que alguns apreciem a leitura.
Com origem na Alemanha e na Inglaterra, o Romantismo - tendência que se manifesta nas artes e na literatura entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX - ganhou força ao chegar à França, espalhando-se por toda a Europa e posteriormente, pelas Américas.
O Romantismo impulsionou uma ruptura estrutural e temática na Literatura, proporcionando ao escritor uma liberdade de expressão, um sentimentalismo e um subjetivismo antes não explorados. Opôs-se ao racionalismo, à contenção e ao intelectualismo pregados pelos estilos que o antecederam.
Para os artistas românticos, o transbordamento da emoção, fantasia e o individualismo foram pilares de sua expressão, cultuando a liberdade de criação, a evasão da realidade através dos sonhos, dos devaneios e a função sacralizadora da arte.
“Os autores românticos revelam no artista uma capacidade de criar mundos imaginários e de acreditar na realidade dos mesmos. Do choque do seu eu com o mundo, o escritor evade-se na aspiração por esse ou outro mundo distinto, situados no passado ou no futuro e onde ele não encontra as dificuldades que enfrenta na realidade imediatamente circundante”.(Proença, p.216 )
Neste contexto, autores como Edgar Allan Poe e posteriormente Oscar Wilde destacam-se significativamente. Poe, com suas narrativas um tanto sobrenaturais, carregadas de mistério, alucinações, terror e morte, consegue retratar os medos e as angústias que assombram a mente humana. Wilde, reconhecendo em Poe um mestre, escreve de forma semelhante, mas um de seus temas preferidos é o elogio da estética e da arte como via de escape dos limites humanos, defendendo a liberdade de escolha, de comportamentos e de expressão.
Possuidor de imensa genialidade, aliada às características inerentes ao contexto romântico, Edgar Allan Poe (1809-1849) viveu de forma singular, passando por inúmeras intempéries, como as dificuldades financeiras, o alcoolismo, enfermidades sofridas por ele, e as mortes de sua mãe e de sua esposa Virginia (tuberculose), o abandono do pai e a rejeição do padrasto, além de conflitos relacionados ao trabalho.
Adversidades que não dificultaram a construção de sua obra literária, de intensa originalidade, influenciado por uma forte tendência byronista.
No conto “O Retrato Oval”, Poe prepara um cenário de mistério, remetendo á uma sensação de terror, já no início do conto. O ambiente é um castelo abandonado, o que leva o leitor a um retorno ao passado, a uma viagem transcendental.
Neste castelo, hospedam-se um homem gravemente ferido (o personagem-narrador) e seu criado.
O fato de o personagem narrador ser um amante das artes, exímio conhecedor da pintura e de suas técnicas, de admirar a arquitetura do castelo e sua decoração, expõe a visão de Poe acerca da teoria da arte pela arte, repudiando o utilitarismo burguês.
Exausto, o homem ferido entrega-se à admiração dos quadros que o cercam e à leitura de um livrinho que continha a descrição das pinturas.No entanto, quando seu olhar se depara com um quadro de moldura oval ate então despercebido, encanta-se (e espanta-se) com uma peculiaridade nesta pintura em especial: à “expressão de uma absoluta aparência de vida”.(p.281), o que o faz imaginar se a surpreendente visão não seria apenas uma ilusão provocada pela mente, fruto do semitorpor em que se encontrava.
Agitado, procurou no livrinho a história referente ao retrato oval. Conta-se que a mulher retratada no quadro era esposa do pintor – este, apaixonado pela arte, considerava sua esposa detentora do belo, e pintava sua imagem com paixão, com intenso prazer, extasiado por esta ser sua mais bela obra.
Para o pintor, a arte era a essência da vida e a sua pintura era, portanto, a própria vida, de forma que, com o decorrer do tempo, à medida que sua pintura ia ganhando forma e cor sobre a tela, sua esposa, simultaneamente, perdia a vivacidade, morrendo aos poucos sob a escassa luz que projetava-se no torreão.
Não apenas o conceito da arte como o belo, mas o da idealização da mulher é percebido no conto. A mulher, da rara beleza, submissa, humilde e obediente, apesar de odiar a Arte como uma rival, se deixa ser retratada, imortalizada pelo pintor, por amor a ele, morrendo por ele, mas transfundindo-se para a tela. A arte e o belo estão intimamente ligados – juntos, são a própria vida – e sem a existência do belo, a arte não existe, existe apenas a morte.
Oscar Wilde (1854 – 1900), excêntrico contestador e um dos grandes nomes da Inglaterra vitoriana, escreveu histórias de refinadíssima beleza, mescladas a uma tristeza cruel, a uma intensa amargura, de grandes amores fracassados, de corações partidos e de dura sátira social. Em suas obras ataca as convenções sociais estabelecidas e critica impiedosamente a mentalidade burguesa e a moral rígida da sociedade vitoriana.
Em “O Retrato de Dorian Gray”, são perceptíveis inúmeras características românticas; ao início do livro, a instabilidade emocional dos personagens reflete um ilogismo sutil, principalmente em se tratando de Dorian, um jovem extremamente belo que, num reconhecimento narcíseo, apaixona-se pela própria beleza (admirada e cobiçada por todos) ao ver sua imagem retratada num quadro por um amigo – imagem esta que envelhece e adquire as marcas da corrupção e dos atos vis que Dorian pratica, de forma que ele permaneça jovem e belo, mas iludido e angustiado.
O personagem Dorian Gray sofre de uma inadaptação ao mundo real, através da consciência da solidão. Aspira por um mundo diferente, refugiando-se no mundo da riqueza e das artes, com uma tendência ao exagero, deleitando-se com os prazeres proporcionados pela arte e pelo belo.
Idealiza a mulher amada, mas a partir do momento em que ela abre mão de sua vida para viver em função dele, ele a despreza.
Com o passar dos anos, Dorian começa a se sentir oprimido e excluído, e como o mestre Edgar Allan Poe, Oscar Wilde apresenta soluções psicológicas para o desfecho da história, que se assemelha a um conto fantástico de Poe. Dorian pode ser considerado um herói trágico, pois apesar do que cometeu movido pela ilusão da beleza física, pelo seu egocentrismo exacerbado, apela para a evasão das evasões: a morte. Resolve destruir o quadro que lhe condena, por não conseguir mais olhar para a própria imagem deformada, o retrato de sua própria alma enquanto seu corpo permanecia no limiar da juventude. Simultaneamente, ao destruir o quadro, Dorian Gray dá fim à sua existência.
Referências
GOTLIB, Nadia Batella. Teoria do Conto. São Paulo: Atica, 1995.
POE, Edgar Allan. Ficção Completa, Poesia e Ensaios; 4ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.
PROENÇA, Domício Filho. Estilos de Época na Literatura. 15ed. São Paulo: Ática, 1995;
WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1979.
HAUSER, Arnold. Historia Social da arte e da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1998.